O mundo parou ou será que fui eu que esqueci de consertar o relógio? Duas semanas… A vida continuou e só eu não consegui avançar nem um pouco junto com ela. Nada tem sido fácil sem você. Encarar a luz do sol entrando no meu quarto tem sido uma tarefa complicada. Levantar da cama então, tornou-se uma atividade que requer muito esforço da minha parte. Preparar comida agora é evento raro. Não quero mais ter que fazer nada se você não for me ajudar. Não é má vontade… É preguiça de tentar superar a quase-perda de um quase-amor. Porque viver sem você, eu até consigo. Eu só não quero ter que conviver com a sua partida. As ruas ficaram tenebrosas, as luzes apagaram-se de repente, e os meus passos já não têm mais uma direção à seguir. Eu estou anestesiada, ingetaram uma super dose de dependência química em mim e minha droga perdeu-se nos caminhos da vida. Estou estagnada no tempo. Parei de viver e ando viajando por aí, por bairros, cidades e estados… perguntando à estranhos se eles chegaram à ver um rapaz meio birrento e ríspido andando por essas ruas desconhecidas. Tiraram um pedaço que pertencia à mim e eu sei que nada no mundo poderá preenchê-lo novamente. Essa espera angustia o meu coração e o torna pequenininho e amassado sem receber notícias suas. Eu tento compreender o por quê de você ter ido embora, assim, pá pum. É, pá pum mesmo. Sem mais nem menos. Sem explicações completas. Sem choro. Sem grito. Sem desespero. Sem nada. Você apenas colocou as duas mãos no bolso e foi. E desde esse dia eu tento parar de mastigar lembranças suas, tento parar de gostar do gosto que têm as suas memórias, tento trocar a estação de rádio, tento parar de abrir a sua gaveta e cheirar o seu perfume. Porque vez ou outra eu me pego pensando em você, revirando suas memórias que permaneceram aqui. Ei! Vem buscá-las… E me leva junto também. Porque eu não vou conseguir me sustentar somente com lembraças suas. Embora você consiga permanecer mesmo quando tem que ir embora, eu realmente preciso de você. Meu sonos estão sendo interrompidos, acordar às 3:31 da madrugada porque ouviu uma batida na porta tem sido desesperador. Ou então porque o celular vibrou. Ou porque o cachorro latiu. Ou só porque acordou pra chorar mais um pouquinho. Pra amenizar a dor, acalmar o coração. Pra ver se eu esqueço que você ainda está aqui; nas músicas, nos cheiros, em lugares que costumávamos ir juntos, em fotografias… E me dói. Me dói tanto, mas tanto… que meu corpo inteiro perde a força. Que eu sinto meu coração parar de bater por alguns segundos. Dói quando eu te sinto tão perto de mim, quando eu ouço sua gargalhada estrondosa no meu ouvido e não posso rir junto contigo mesmo sem entender o porque. Dói quando eu encontro nossas fotos e percebo que você está longe demais pra fotografar mais delas e espalhá-las por toda a casa. Dói quando eu vejo o seu suflê de morango dentro da geladeira pela metade e sua colher ainda suja em cima da pia. Dói sentir sua toalha úmida e com o cheiro do seu shampoo. Dói te sentir e não poder te tocar. Dói sentir você penetrar dentro de mim e não poder te apalpar e sentir a textura da sua barba mal feita. Dói virar na cama e ver que lado direito dela agora ficou vago, só esperando alguém pra substituir. Mas não tem ninguém, e nunca terá. Você ainda vai poder me encontrar aos sábados na biblioteca da esquina, se quiser. E eu ainda vou continuar indo ao supermercado nas quartas-feiras pra comprar os seus morangos. Eu continuo no mesmo lugar. Não troquei o meu número e não vendi o nosso apartamento que compramos com todo o esforço possível. Seu violão eu limpei faz três dias, e suas camisetas estão bem passadas e dobradas na segunda gaveta do guarda-roupa. Não apaguei suas sms de xingamentos porque eu sei que daqui a pouco nós iremos rir disso tudo. Não arrumei sua mala porque eu sei que logo logo você irá bater na porta pedindo desculpas. E eu não paro de pensar em “nós”, porque eu sei que pra você ainda existe esse “nós”. E sempre existirá. Pelo menos enquanto eu estiver na biblioteca lendo um livro qualquer e você chegar por trás com um buquê de rosas meio fajuto…